Escuridão

Está escuro aqui, está escuro lá fora…

A chuva ainda despenca incessante e violenta sobre a cidade apagada. Através das amplas janelas, vejo apenas as silhuetas dos prédios revelarem-se como vultos desfigurados a cada novo relâmpago. Não é possível ver o céu, apenas um manto negro. Não é possível identificar as luzes do horizonte, apenas mosaicos tremeluzentes em gotas de chuva.

Estou preso aqui. Estou livre ao mesmo tempo. Estou fora do mundo e o mundo está fora de mim. Nesse momento silencioso e vazio, nessa escuridão soberana e absoluta, no frio congelante e desafiador, eu vivo o máximo de mim mesmo. Meus olhos buscam imagens antes renegadas, buscam sentido para os fragmentos de olhares e sorrisos das minhas memórias do fim.

Eu me perco no tempo, perco tempo, o tempo se perde em mim. Não existe mais vontade. Não existe profundidade. Nada, não é quase. Minhas mãos não querem calor. Não quero sabor. Não quero ouvir lamentos de dor. Não me importo com sua cor. Sou um reflexo em um espelho partido, nas água de um rio, numa tormenta. Sou nada, ou tudo, sou completamente nulo.

Está escuro aqui, aqui dentro também…

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