Lebres e Lobos II – A Febre Fria

 

O vento uivava atravessando as árvores brancas da floresta gelada. A neve espessa caia em flocos com formatos singulares e uma densa neblina dificulta a visão de Szél. Ele estava sozinho. Estava nu. Na sua frente uma garota dançava.

Sua pele branca se confundia com a neve, mas seus cabelos negros destacavam-se na paisagem branca…

Ela dançava, girava, sorria.

– Irina! O que você está fazendo aqui?

Chamou Szél, com a voz abafada pelo vento.

– Irina! – Chamou o garoto novamente, agora em pânico. – Irina, cuidado! Atrás de você…

Um lobo negro aproximava-se dela. Uma enorme besta com pêlos escuros ouriçados e olhos vermelhos cor-de-sangue. Seu aspecto era monstruoso e ele movia-se como uma miragem demoníaca, escondendo-se nas sombras.

Irina continuava dançando. Era bela, com gestos delicados e um leve sorriso no canto da boca. Seus lábios eram vermelhos e largos. Seus olhos eram claros como o céu de verão. A garota dançava, ignorava o rapaz que gritava seu nome e aproximava-se do lobo.

Szél tentou correr até ela, mas então percebeu que seus pés descalços estavam congelados na neve e que ele não poderia se mover. O garoto desesperou-se.

– Irina! Irina… Volte, Irina! – Gritou Szél ainda mais forte.

Então Irina olhou para ele, a garota fixou seus olhos cinza-azulados e penetrantes no rapaz, abraçou o lobo com desejo, deixando seu corpo envolver-se nos pêlos negros e disse:

– Acorde Szél.

Ele acordou…

Szél estava deitado em um canto no alto de uma antiga torre de pedra.

Ele tremia. O garoto ainda tentava se esquentar, mas o ar gelado que tomava seus pulmões ardia como punhaladas em seu peito.

Um dia se passara desde que ele avistara os invasores do povo branco seguindo na direção de Yerkel e Harsing ainda não havia retornado daquele vilarejo.

– Você conseguiu descansar? – Perguntou Oliver, abordando o amigo.

– Acho que sim. Já é tarde?

– O sol está alto no céu e a porcaria da minha barriga ainda está vazia. Precisamos comer algo…

– Diabos! Não estou com fome.

– Ninguém perguntou. Precisamos comer, não me importo se você quer ou não.

Szél olhou para Oliver e sorriu.

Oliver era grande, talvez dois palmos mais alto que Szél, mas suas feições arredondadas faziam o garoto corpulento parecer ainda maior. Ele aproximou-se de uma fenda na parede de pedra da torre e contemplou o horizonte. Na sua frente havia apenas o lago branco envolto em uma névoa tão densa que parecia formar um muro branco até onde sua vista alcançava.

– Lago maldito! – Exclamou Oliver, então virou-se para outro soldado que montava guarda na torre. – Yuri! Fique atento. Eu e Szél vamos encontrar algo para comer. Não tire seus olhos daquele lago.

– Se apressem. Estou com fome. Perdemos toda a madrugada nessa torre gelada, pelos deuses do vento e do gelo, eu estou cansado!

– Cale sua maldita boca, Yuri. Senão não consegue mantê-la fechada, fecharei por você de uma forma que não conseguirá comer por quatro luas!

– Nem falei nada, só disse que…

– Você está de sacanagem que está abrindo essa boca para reclamar de novo, seu fedelho com cabelo de ferrugem fedido?!

Yuri baixou a cabeça. O único jovem de Koll que ousava encarar Oliver era Szél, esse levantou-se, sorriu e deu dois tapas nos ombros de Yuri. O Humor de Oliver não era dos melhores quando ele estava famindo.

Oliver viu que o amigo tentava amenizar sua rispidez, mas continuou carrancudo até chegarem nas escadas.

– Você estava sonhando com ela… Com Irina! Você não parava de chamá-la. Nos seus sonhos você deve ser um cachorro sarnento, babando e balançando o rabo atrás dessa garota… – Disse Oliver com um tom dócil e com um sorriso no rosto.

– Eu não posso fazer nada, Oliver. Não posso controlar meus sonhos.

– Mas pode controlar sua vida. Você deveria tentar.

– Irina não merece um bastardo…

– Somos todos bastardos, Szél, com mães ou madrastas! Somos bastardos e estamos famintos! Vamos caçar algo para comer.

Szél seguiu Oliver enquanto eles desciam a estreita escadaria de pedra que dava acesso ao vale. Eles precisavam caçar, mas Szél não conseguia desligar seus pensamentos. Ele era o filho mais novo de Harsing e com apenas 16 anos já era soldado. Bastardo de nascimento, o garoto viu sua vida mudar com a morte da esposa de seu pai. Ele deixou o abrigo militar onde fora criado e foi aceito na casa de Harsing aos sete anos de idade. Agora, nove anos depois, era tratado como um filho legítimo por todos, menos por seus irmãos mais velhos, Gared e Gensen, e pela família da falecida esposa que sempre recorria aos magistrados da vila para relembrar à Harsing que o garoto não tinha direito a nenhuma herança.

Embora esse assunto chateasse Szél, ele não sentia nenhuma tristeza ou indiferença em sua vida. Ele amava Harsing. Seu pai era sua família, ele e todos os soldados da casa militar onde vivera desde seus primeiros anos de vida sob a dura doutrina militar praticada pelo clan Bognár.

Agora o garoto vivia nas fronteiras do território e seu trabalho era vigiar as terras de Jules contra invasores, arruaceiros e marginais. Por duas vezes, inclusive, ele enfrentou e matou ladrões que tentaram atacá-lo. Ele era rápido, e por isso, muitas vezes era também solicitado por Jules como mensageiro pessoal. Szél sabia os caminhos da mata, as curvas da estrada e onde estavam as árvores mais altas que lhe possibilitavam ampliar sua visão.

E foi assim que Szél salvou a vida de Molnár.

Tudo acontecera muito rápido… O garoto estava sozinho na estrada no dia anterior, pois sua missão, que fora entregar uma carta de Jules no povoado vizinho de Yerkel estava cumprida e ele voltava para casa quando percebeu uma movimentação estranha na mata. De imediato, ele parou de se mover, escondeu-se e lentamente procurou uma árvore com troncos grossos que pudesse escalar sem ficar com o corpo exposto e vulnerável à flechas inimigas.

Sua vestimenta de lã de carneiro e pele de lobo estava bastante suja e coberta de neve, o que poderia lhe garantir uma leve camuflagem enquanto escalava a árvore fria e retorcida.

Foi do alto dela que Szél conseguiu ver o bando que se aproximava sorrateiramente. Eram como fantasmas, ele pensou. Seus corpos brancos e magros avançavam leves, com movimentos harmônicos e calculados. Eles estavam cruzando o lago branco, o lago que separava o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Seus olhos eram grandes, frontais. Eram como seres-humanos, mas diferentes, pareciam opacos e distorcidos pelo frio e pela fome, com olhos redondos e claros em órbitas escuras de predadores atentos.

Szél teve medo, lembrou das histórias contadas pelos soldados mais velhos ao redor das fogueiras noturnas e soube que aqueles não eram seus inimigos habituais, não eram moleques, nem bandidos, nem arruaceiros. Szél estava vendo, pela primeira vez em sua vida, o povo canibal.

Ele esperou alguns poucos segundos, desejando que os inimigos não percebessem sua presença, então saltou da árvore e correu. Correu para chegar em casa antes do cair da noite, correu para avisar seu povo, correu para deixar para trás o medo que sentia e, principalmente, correu para salvar sua vida!

Sua jornada durou seis horas, tempo em que ele nem arriscou olhar para trás.

Ele gritou para chamar Harsing e esse apareceu ao seu encontro.

Ainda ofegante, Ele tentou contar o que havia visto, mas a única palavra que saiu de sua boca foi: “Canibais”.

Agora, um dia depois da invasão começar, Szél continuava espantado pela visão do povo branco. Eles eram um medo antigo, temas de lendas e histórias de terror que se espalhavam no folclore local. Eram assustadores. Pior… Eram reais.

***

Os garotos seguiam contornando as árvores brancas em busca de rastros de algum animal. Szél andava distraído quando Oliver quebrou o silêncio…

– Você está vendo isso, Szél? – Perguntou Oliver.

Szél estava.

O garoto acordou de seu transe e calou seus pensamentos. Não era hora de se perder em devaneios. Ele levou sua mão rapidamente para sua espada e a retirou da bainha.

– Pegadas na neve, Oliver. Estão por todos os lados!

– Estão descalço… – Observou Oliver investigando as marcas na neve.

– O povo branco. – Acrescentou Szél, dirigindo um olhar de preocupação para o companheiro.

– Mas que diabos!

– Oliver, estamos cercados!

Os dois se juntaram em uma formação defensiva, mas o ataque foi mais rápido do que esperavam.

Uma flecha negra cortou o ar e passou raspando a orelha de Szél, cortando levemente sua cabeça. O garoto se abaixou e ivestiu na direção de seu atacante, mas ele não conseguia ver nada além de vultos rápidos perdidos no meio do vento.

Szél avançou um par de passos rápidos para um lado e para o outro, mas seus oponentes eram ainda mais rápidos.

– Não consigo vê-los. Eles se escondem na neve. – Gritou o garoto.

Uma segunda flecha cortou o ar, essa ricocheteou nos galhos na frente do rapaz e desviou-se. Szél avançou novamente, mas os gritos de Oliver o despertaram.

Oliver estava lutando.

Haviam três homens brancos o cercando. O garoto corpulento tentou afastá-los, mas eles eram rápidos e brandiam suas láminas negras com habilidade.

Szél atacou pelo flanco do amigo. Ele desviou um golpe de cima para baixo, depois retirou seu punhal da bainha e com sua mão esquerda estocou a barriga do opressor. O homem branco dobrou os joelhos e foi ao chão, formando uma poça de sangue vermelho e escuro ao seu redor.

– Corra Oliver! Suma daqui. Eles tem um arqueiro nas árvores.

– Não tem mais! – Gritou Yuri, correndo e ofegante.

O rapaz surgiu por entre as árvores carregando sua espada suja de sangue e se posicionou em linha com Szél e Oliver.

– Eles estavam seguindo vocês, tive que me esconder na torre quando passaram.

– Conseguiu contar quantos são? – Perguntou Szél.

– Tem mais deles na mata. Quatro, talvez… São muito rápidos. – Disse Yuri com sua voz fraca e com a respiração pesada.

– Você está bem? – Perguntou Szél.

– Ele me mordeu. O maldito me mordeu. Meu braço está queimando!

– Mantenham a linha… – Disse Szél. – Não podemos deixá-lo chegar na cidade!

Os homens brancos avançaram contra os garotos. Eram dois deles, mas outros se aproximavam, saindo por dentre as árvores como fantasmas camuflados pelo vento.

Szél cobria o flanco direito, Oliver estava no centro e Yuri protegia a esquerda.

Eles lutaram por alguns minutos, o povo branco já estava em maior número. Eram seis deles. Os garotos tentavam recuar, mas as árvores secas e os galhos pontiagudos atrapalhavam sua movimentação. Eles tinham dificuldade em manter sua linha, mas tudo ainda ficaria pior.

Yuri estava ofegante demais. Por diversas vezes ele baixou sua espada e balançou a cabeça. O garoto estava sentindo-se tonto, febril e dormente. Ele foi ao chão.

Yuri desabou pálido, tremendo e suando.

Oliver tentou arrastá-lo para trás, mas esse breve momento foi suficiente para o povo branco avançar sobre ele e puxar Yuri para dentro da mata.

– Szél! Eles pegaram o Yuri. – Gritou Oliver avançando insanamente contra seus atacantes.

– Não. Oliver.

Szél percebera que os passos de Oliver foram equivocados, ele quebrara a linha e baixara a guarda. Tarde demais. Uma pancada com a lateral de uma lança colocou Oliver no chão, nesse momento, Szél se viu cercado por seis inimigos.

Eles se afastaram, se posicionaram de forma a cercá-lo. Os olhos cinzas-claros daqueles corpos pálidos fitavam Szél de uma forma terrivelmente penetrante.

Seus inimigos apenas gruniam, não falavam nenhuma palavra.

O garoto os encarou. Acuado, sentiu que sua única alternativa era atacar. Szél escolheu o maior deles. Um homem da cor da neve, com uma pele de aspecto seco e músculos à mostra.

– Ah! Irina!!! – Gritou Szél, deixando uma pequena lágrima surgir em seus olhos, temendo que essa fosse a última vez em que pensaria na garota que amava mais a cada dia.

O golpe foi perfeito. Ele atacou com a espada apontada para a frente, o inimigo rebateu para o lado, então Szél girou o corpo, girou a lámina e cortou a cabeça do inimigo com um movimento rápido que abriu uma fenda da nuca ao queixo do oponente. Então, imediatamente após isso, girou os tornozelos para atacar o segundo alvo. Foram três golpes. Ele estocou para baixo, ferindo a perna do maldito homem branco, então levantou a espada para cortar seu peito e, passando por ele, cravou seu punhal nas costas do inimigo.

– Morram, carniceiros. Morram malditos. Vou afundá-los no gelo eterno do lago branco, seus diabos!

Szél gritava, rosnava e girava.

Ele suava. Sentia o calor da batalha explodir em seu peito. Sentia angústia, sentia ódio e sentia medo.

Ele matou mais dois inimigos assim, ele era rápido, com movimentos precisos e violentos. Seus músculos ardiam, mas a dor fazia Szél segurar sua espada com mais força ainda. Ele sentia a loucura da morte e queria buscá-la.

Os dois oponentes que sobravam ao seu lado mantinham-se afastados. Cada vez que Szél investia contra um deles, o outro avançava em suas costas. Ele foi ferido duas vezes assim, mas não eram cortes profundos. Szél estava cansando, perdido nesse jogo entre os dois homens brancos. Ele sentia sua perna tremer na neve e sentia que o fim estava próximo, havia um gosto amargo em sua garganta, seus olhos ardiam com o suor que escorria sobre eles e seus braços queimavam cheios de ácido em suas veias, mas os sobreviventes costumam contar com a sorte…

Oliver acordou de repente. Ele alcançou sua espada e golpeou o tornozelo do inimigo mais próximo, cortando-lhe o tendão. O corpo branco desabou. Enquanto ele se debatia, Szél aproximous-e rapidamente e fincou a espada em sua garganta. O sangue vermelho explodiu manchando a neve.

– O outro está fugindo, Szél! – Gritou Oliver. – Não o deixe escapar.

Szél correu. Ele seguia os passos do invasor branco e esses seguiam na direção de Koll, pela floresta branca. Oliver estava ferido e Yuri estava doente. O ataque daquela tarde fora evitado, mas o preço seria alto demais. Junto com aquele corpo branco, seco e nu, o medo chegava até o vilarejo e uma lenda se faria verdade.

***

Naquela mesma hora, Jules observava as chamas que consumiam Yerkel, antes de partirem de volta para Koll. Ao seu lado, seus homens formavam uma pira funerária onde queimariam todos os corpos, no alto dela estava o corpo sem cabeça encontrado na cabana de Molnár…

– Canibais não podem andar livres em nossas terras, Jules – Disse Harsing com decisão.

– Nunca havíamos visto o povo branco, Harsing. Não deveriam estar aqui.

– Nossos pais e avós os ensinaram a ficar do outro lado do lago branco, Jules, por isso nunca os vimos, mas nossos mortos não conseguem mais cruzar o lago, congelado nesse longo inverno, então estão vindo para cá para nos buscar.

– Essa lenda é tão estúpida quanto você e seus cães, Harsing. – Bradou o nobre Bognár enquanto batia seu punho com firmeza no peitoral de seu primo. – Só existem duas coisas do outro lado do lago, gelo e nossos antepassados mortos! Ninguém vivo pode atravessar para o lago e ninguém morto jamais voltou de lá! Não quero esse assunto se espalhando em Koll de jeito nenhum! Não quero homens armados cruzando para o mundo dos mortos, Harsing.

Jules andou até a pira funerária, jogou sua tocha para acender o fogo e virou-se para seus homens…

– Ninguém pode saber que os vimos. Ninguém pode saber que o povo branco existe!

Poucos homens haviam visto os canibais, eram personagens de histórias para crianças, de cantos de batalha e do folclore local. O povo branco não era visto como inimigo, mas isso estava para mudar.

Naquela mesma noite em que Jules e seus homens cavalgaram para Yerkel e mataram tudo o que respirava, eles descobriram que o longo inverno ainda traria muita morte antes de chegar ao fim. A lenda também dizia que o povo branco se alimentava da alma das pessoas e que aqueles que perdiam sua alma, acordavam novamente como canibais famintos. Era assim que o povo branco crescia. Portanto, Jules não queria nenhuma criatura desgraçada e sem alma se reproduzindo em suas terras. Eles mataram todos, queimaram os corpos, mas salvaram Molnár.

CONTINUA…

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