Lebres e Lobos III – Palavras ao Vento

 

Irina caminhava pela mata naquele fim de tarde.

Sempre solicita e acostumada a ocupar o lugar deixado por sua falecida mãe, a garota de apenas 15 anos ajudava seu pai na confecção de flechas para a casa de Harsing e acompanhada de sua irmã mais nova, Hellyen, que corria e pulava na neve, ela colhia fibras retiradas dos cascos de grandes trassvets, árvores brancas de madeira elástica que cresciam nos arredores do vilarejo e eram usadas na confecção de cordas, além de pequenos gravetos usados principalmente para a fabricação de aljavas. Ambas carregavam largos cestos onde depositavam os produtos e, embora sempre executassem suas tarefas com responsabilidade, naquela tarde estavam atrasadas.

A noite caia rápido e Irina sabia que seu pai não gostava que suas filhas estivessem fora após o por-do-sol. Seu pai era Khule Tanahr, o principal escudeiro e campeão da casa de Harsing, um servo fiél e grande guerreiro. Sua história, repleta de tragédias, moldou um soldado, mas não um pai, ao menos era o que pensava Irina. Khule ficara órfão muito cedo e fora criado na casa de Harsing, ambos cresceram juntos e a amizade perdurou até o casamento do primeiro. Khule nunca desfrutou da vida ao lado de sua esposa, Hanessa, pois durante os cinco anos até sua morte, ele esteve em terras estrangeiras, lutando ao lado de Harsing em uma guerra que recentemente mudara alianças e inimizades que voltavam há centenas de anos.

Após a morte da esposa, Khule foi obrigado a tomar responsabilidade por duas filhas que mal conhecia, mas mesmo agora, oito anos depois, essa ainda era uma batalha que parecia longe de ser vencida pelo guerreiro campeão. Certa vez, durante outro longo inverno, Hellyen adoeceu e sofreu com febres muito altas. Irina percebera naquela ocasião que seu pai temia o contato com as filhas, pois assustava-se com a fragilidade das meninas, mas em nenhum momento ficou indiferente, seja trazendo diferentes curandeiros para atender à garota, fazendo oferendas ou mesmo chorando sozinho durante as noites frias, temendo perder outra pessoa amada. Ao observar a forma como seu pai mantinha distância de sua irmã mais nova, mesmo sofrendo por sua saúde, Irina percebeu que sua brutalidade não poderia ser dissolvida e desde então passou a tomar conta de sua irmã, respeitando seu pai e mantendo a distância imposta silenciosamente por ele.

Fora naquele mesmo longo inverno, quatro anos atrás, que Irina aprendeu seus primeiros feitiços, quando uma das curandeiras levada até sua casa para tratar da saúde de Hellyen, a ordenou que escolhesse uma joia muito valiosa de sua casa, que capturasse um sapo, que colocasse a joia na boca do animal, costurasse e então o enterrasse em uma cova profunda. Irina escolheu um anel de ouro de sua mãe, o anel que Khule o havia oferecido no momento do casamento dos dois, capturou um sapo gordo, verde escuro e viscoso, introduziu a joia e sua boca e costurou com muita dificuldade. Para enterrá-lo, ela teve a ajuda de Szél, filho de Harsing. Após terminado o feitiço, ambos ficaram em silêncio, pensando no que haviam feito e esperando que os espíritos da terra estivesse satisfeitos com a oferta recebida e permitissem que sua irmã continuasse a viver… Hellyen sobreviveu. Irina acreditou que o feitiço funcionara e desde então, tenta aperfeiçoá-los em segredo, em suas longas tardes caminhando na mata.

– Hellyen, se apresse! Estamos muito atrasadas e ainda precisamos encher os cestos antes de voltar.

Ela gritava com sua irmã que brincava e cantava.

– Cante comigo, Irina… – Falava Hellyen dançando e girando.

– Você lembra da canção de Ceyllin, Hellyen?

– Não… Era uma música de nossa mãe?

– Uma música muito mais antiga que nosso povo, Hellyen… – E irina começou a cantar…

“Ceyllin é o sol, mas é o luar

Sua beleza é fonte

É despertar

Ceyllin é a água e todas as frutas do pomar

Ela reflete nosso mundo

Fluindo ao desaguar

Sua beleza é profunda, para todos afogar

Seu leito tortuoso tem curvas para enganar

Sua alma é livre, é um rio a viajar

Às margens de Ceyllin irei dançar

Às margens de Ceyllin irei dançar

Às margens de Ceyllin irei dançar”

Irina estava feliz. Ela sentia o vento bater em seu rosto, mas gostava do frio. Ver Hellyen tão cheia de vida ainda lhe trazia mais confiança no feitiço que acabara de fazer e naquele fim de tarde, enquanto o sol baixava, ela acreditava que os espíritos lhe ajudariam e atenderiam seus pedidos.

Há poucos instantes, Irina havia amarrado fitas brancas nas árvores trassvets, as mesmas em que colhera as fibras, cada fita havia sido fervida junto com sua menstruação e depois banhada em mel. O feitiço, ao ficar exposto ao vento, levaria aos espíritos da floresta a mensagem de que Irina estava pronta para casar.

Hellyen continuava correndo e rindo, então Irina começou a correr também. Ambas largaram seus cestos, pularam na neve, dançaram e cantaram juntas. Foi durante esse momento que intensa alegria que uma imagem despertou a atenção de Irina e fez com que ela pensasse imediatamente nas fitas brancas amarradas nas árvores….

Ela viu Szél.

O garoto corria na mata em sua direção. Por alguns momentos, ela achou que o garoto corria para ela. Seu coração disparou, suas pernas tremeram e ela agradeceu aos espíritos da floresta pela graça.

Mas Szél não parou.

– Fuja! Fuja para sua casa e tranque as portas! – Gritou Szél quase sem voz. – O povo branco está vindo.

Irina não pensou duas vezes, esqueceu seus feitiços, agarrou sua irmã e correu para casa, abandonando os cestos na mata.

Naquela noite, sozinhas em casa, após seu pai cavalgar para Yerkel junto com os demais homens da casa de Harsing, Irina e Hellyen dormiram juntas. A irmã mais velha desejou apenas que seu pai pudesse voltar vivo para casa, esquecendo seus sonhos e temendo por mudanças.

Mas as suas palavras ao vento acabariam por mudar sua vida completamente.

CONTINUA…

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