Lebres e Lobos IV – A Estrada Do Destino

 

A estrada para Yerkel era uma descida sinuosa. Era uma estrada difícil, ainda mais em um longo inverno, com neve espessa e vento cortante. O bando de cavaleiros, divididos em dois grupos com aproximadamente 20 homens cada, seguia em trotes lentos, mas ainda assim era a maior velocidade que seus cavalos conseguiam empreender naquele trecho, enquanto lutavam para firmar suas patas na lama gelada.

Eles haviam circundado as terras de Jules até os limites do lago branco, agora deveriam realizar uma longa curva para o oeste até encontrar as bordas da floresta seca de carvalhos e depois teriam uma breve colina para transpor.

Harsing e Khule cavalgavam lado-a-lado, como sempre fizeram desde sua infância, seja em patrulhas ou em batalhas. Harsing estava calado naquela noite e Khule, sentia o peso das preocupações daquele homem que a vida lhe tornou irmão. Sem muito jeito para palavras, Khule falou do vento, da neve e dos terrores do frio, mas Harsing apenas balançava a cabeça, positivamente algumas vezes, negativamente outras, sem motivar nenhuma discussão. Por vezes os dois foram abordados por mensageiros de Jules e por batedores que iam e vinham na estrada, mas Harsing permanecia fechado e calado.

Jules deixou a retaguarda e cavalgou para a frente da tropa, ao passar ao lado de seus homens, o experiente líder expressava dureza ao impor o ritmo forte em que todos deveriam prosseguir, mas também exaltava uma compaixão paterna para com seus homens e seus grandes cavalos de guerra.

A primeira vez que Harsing falou mais que um par de palavras, foi quando Jules cavalgou ao seu lado…

– Meus ossos estão gelados, Harsing. – Reclamou Jules, mas abriu um sorriso e esfregou as pernas sobre a montaria.

– Achei que fossem feitos de gelo, Senhor… – Respondeu Harsing.

Khule riu, assim como Jules.

– Meu coração é de gelo, Harsing, meus ossos são como o aço da sua espada, cavaleiro, rígidos e firmes, mas não existe nada que o gelo não ajude a quebrar.

– Estamos próximos, senhor – acrescentou Khule – Não devemos demorar agora.

– Anos atrás eu ansiaria por uma cavalgada dessas, contra o vento, contra o medo e ao encontro da morte! – Ele riu… – Mas estou velho.

– Ouça isso, Khule, nosso senhor está se queixando do frio.

– Acho que teremos que lutar contra o frio, para o bem de nosso senhor. O que acha, Harsing? Podemos vencê-lo?

– Calados, tolos… Essa é uma batalha para garotas jovens e nuas na minha cama, não para velhos desgraçados como vocês!

A conversa animou os homens e poucos minutos depois, o lago já ficava para trás, agora entrariam na floresta, o que impediria que cavalgassem lado-a-lado. Jules precisava retornar para a retaguarda, mas antes disso resolveu deixar um recado para Harsing…

– Ao voltarmos para casa, Harsing, precisaremos conversar. Você precisa de uma mulher em sua casa, seus filhos precisam de miolos naquelas cabeças ocas.

– São bons meninos, senhor. Eu os eduquei como fui educado.

– Eu eduquei você, e também Khule, seu escudeiro, eduquei os dois como soldados desmiolados. Eu sei do que estou falando…

Todos riram…

– Mas me escute. – Disse Jules retomando a seriedade. – Eles são bons garotos, mas são nobres educados como soldados em uma casa sem mulheres… Eles vão se matar antes de aprender a matar os inimigos… Você precisa colocar uma mulher em sua casa, Harsing, então lhe darei o comando de minhas terras.

– Que diabos?! – Espantou-se Harsing…

– Depois nos falamos. – Encerrou Jules, virando seu cavalo e cavalgando para o final da coluna.

Harsing olhou para Khule, ambos pareceram assustados com a súbita notícia. Sobre eles, a floresta de carvalhos secos se fechava como uma coroa de espinhos e muitas vezes os homens precisavam proteger os rostos dos galhos retorcidos que os enfrentavam como facas afiadas, desafiando sua incursão na floresta.

Khule permaneceu calado por mais algum tempo. Como dito antes, iniciar uma conversa não fazia parte de suas habilidades, seria mais fácil para ele calar um inimigo, ou dezenas deles, do que encontrar uma forma de dizer a Harsing o que deveria ser dito. Khule não queria parecer pretencioso, nem oportunista, não queria ser arrogante e por isso calculou muito bem cada palavra que saiu de sua boca…

E foram poucas.

– Irina está em idade de se casar. – Disse Khule cuspindo as palavras rapidamente.

– Pois bem… Teremos um casamento então. Finalmente iremos unir nossas famílias, meu irmão. – Respondeu Harsing em tom formal.

– Certo. Obrigado. – Disse Khule acenando ao amigo.

– Leve-a até minha casa assim que voltarmos, trataremos dos detalhes na ocasião.

Khule havia feito a sua parte, por anos ele quis se aproximar de suas filhas, mas não teve sucesso, continuavam sendo criaturas frágeis para ele e o tamanho de sua responsabilidade para com elas era o único medo que ele conhecera em sua vida. A morte de sua esposa fora uma dor que Khule nunca prevera e agora desejava que o destino de suas filhas não estivesse mais em suas mãos, pois para todos os efeitos, ele se considerava um fracasso como marido e como pai.

Khule sabia que Irina preparava feitiços na mata, mas assim faziam todas as jovens de sua idade. Ela havia crescido e já era uma mulher. Como pai, sua única função era também sua última função, arranjar para ela um bom marido. Casada, Irina teria proteção, teria dignidade, poderia ter filhos e encontrar seu lugar entre o povo. O casamento era seu único destino, a única solução.

Harsing tinha dois filhos legítimos, pensou Khule, um deles deveria desposar Irina, o outro, em poucos anos poderia desposar Hellyen. Sim, seria perfeito. Irmãos e irmãs, juntos para sempre. Seu laço com Harsing jamais seria quebrado e suas famílias permaneceriam eternamente ligadas.

Havia também Szél, mas Khule não pensou muito no bastardo. Era um bom guerreiro, mas o destino dele seguia de acordo com sua criação, ele era um soldado e viveria como um, longe do vilarejo e enfrentando a morte a cada dia. Khule sabia que Irina e Szél eram amigos, mas casamento nada tem a ver com amizades e afeições, o homem sabia que Harsing pensava como ele e então imaginou que sua filha teria uma vida boa, ao lado dos herdeiros de Harsing e Jules, uma vez que esse último estava velho e não tinha herdeiros diretos para sua sucessão.

Harsing permaneceu calado, e Khule também. Ambos cavalgaram suas últimas milhas até Yerkel, desmontaram de seus cavalos e invadiram o povoado para fazer sangue jorrar. Eles mataram muitos homens naquela noite. Eram homens com pele pálida e seca, com dentes arcados e cabelos desgrenhados. Não usavam peles nem armaduras, mas suas espadas eram feitas de um aço misterioso, escuro e gelado. Eram homens do povo branco, canibais e fedorendos, mas eram apenas homens, decidiram, pois morriam como homens.

Naquela noite Khule fez sua espada cantar com sons de dor e letras de morte, mas nada disso lhe preocupava, em seu íntimo, pensava apenas no casamento de Irina.

Harsing, por outro lado, em nenhum momento teve dúvida de qual homem de sua casa se casaria com a garota… Ele tinha dois filhos legítimos, um bastardo e agora arranjara mais uma cria… Um órfão amaldiçoado com ossos quebrados e coberto de sangue.

E Jules Bognár, por sua vez, deu início aos preparativos para a sua morte, sua última viagem, pensava ele, seria a travessia do lago branco. Ele estava doente e estava morrendo.

CONTINUA…

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