Lebres e Lobos V – A Promessa do Corvo

 

A cabeça de Molnár latejou com a porrada, fora apenas o primeiro soco, mas quase fora também o último. Atordoado, ele sentiu um breve estalo no fundo da alma e sua vista ficou nublada, como se tivesse sido atirado rapidamente para o fundo de uma lagoa escura. Molnár precisou balançar a cabeça como que para escapar daquela inércia que o consumia, agitou os braços e tentou se equilibrar, sentiu seus pés falharem e dobrou os joelhos. Estava caído, mas ainda não havia acabado.

Os olhos do seu oponente brilhavam. Ele gritava e levantava os braços. Apenas um soco e Molnár estava no chão. Talvez ele não fosse tão rápido, talvez a culpa fosse do garoto, que exitava em usar suas mãos quebradas para se defender e agora estava ajoelhado aos pés do inimigo e não sentia vergonha, sentia apenas que estava cansado.

Molnár olhou para cima novamente… O sangue escorria de sua boca e deliciava o bando que o cercava, seu sangue não era triunfo para eles, era apenas diversão. Eles riam, mas nada daquilo era divertido para o órfão que acabara de chegar na cidade.

Nem duas semanas haviam se passado desde que Harsing o abrigou em sua casa, mas nada parecia estar dando certo para Molnár, ele parecia odiado por todos, talvez até temido por alguns. Sobrevivente de um ataque do povo branco, ele parecia mesmo amaldiçoado. Apenas Szél tentava se aproximar dele, mas Molnár parecia não se importar e ignorava os cuidados de Szél assim como ignorava a hostilidade dos demais… Uma pena que nem tudo poderia ser ignorado, enfim.

Ao ver seu sangue no chão, Molnár pensou em sua mãe e seu pai. Pensou na morte dos dois e também no maldito povo branco e lembrou do rosto do inimigo que matou.

Alguns breves segundos depois, Molnár decidiu que deveria calar seus pensamentos, mas enquanto pensava exatamente isso, sentiu um chute nas costelas que o fez rodar para o lado, roubando o ar de seus pulmões. O agressor gritava novamente, ele o mandava levantar e lutar feito homem. Talvez precisasse fazê-lo, então decidiu que faria. Molnár levantou… Foi um salto. Estava firme em postura defensiva, reação que provocou gritos no bando que nos cercava, eles queriam uma luta.

– Criou um par de bolas, maldito?! – Rosnou o agressor enquanto partia para cima de Molnár novamente.

Molnár Conseguiu desviar os dois primeiros socos que o oponente investiu contra seu rosto, mas ainda estava lento e recebeu um terceiro na boca do estômago. O garoto gradeceu por não ter nada dentro dele para vomitar, mas se contorceu e caiu no chão pela segunda vez.

Todos riram, o seu oponente, chamado Oliver, segundo os gritos da platéia, levantou os braços mais uma vez e comemorou. O chão parecia confortável naquele momento, mas Molnár não havia sobrevivido ao ataque do povo branco se soubesse se entregar tão fácil assim e por isso voltou a levantar.

Ele estava sozinho, cercado por um bando de sete arruaceiros, no centro da roda, apenas Molnár e Oliver, um brutamontes careca com dentes separados, olhos arregalados e muita força nos punhos. No começo da luta, o garoto tentou usar o peso do oponente ao seu favor, mas o equilíbrio de Oliver se provou excelente, ele não se deixava enganar, mantinha sempre o corpo firme, com o peso nos pés de apoio, alternando entre o direito e o esquerdo enquanto projetava seus longos braços contra Molnár. Ele realmente sabia brigar.

Oliver investiu novamente, dessa vez mais cauteloso. Começou a medir melhor seus golpes, calculando os movimentos. Depois deles rodarem alguns segundos, sem nenhum deles desferir nenhum golpe, Molnár percebeu que havia algo de diferente na cautela de Oliver.

Ele estava começando a cansar.

Molnár continuou rodando. Oliver perseguia cada passo, estavam coordenados em uma dança fatal, onde qualquer passo em falso poderia ser o último. O suor começou a brotar entre os ralos cabelos curtos e claros do brutamontes, escorrendo por suas têmporas e pelos olhos.

Ele retraiu a mão esquerda para limpar o rosto, então, em um rompante de violência, Molnár jogou toda sua força para sua mão esquerda, tentando acertar o rosto do gigante, que rebateu esse golpe, abrindo o braço direito e baixando o rosto, foi pouco, mas o bastante para que o garoto pudesse tentar um novo golpe e dessa vez consegui encaixar um cruzado de direita eu sua boca.

Molnár sentiu sua mão tremer com o impacto. Sentiu muita dor em seus ossos, mas sentiu também o maxilar de Oliver se deslocando com o golpe, afastando-se para trás para absorver a força. Ele não caiu. Oliver o olhou sério, com raiva, enquanto levava sua mão à boca para aparar o sangramento. A plateia calou, nenhuma risada, nem grito de euforia ou lamento. O silêncio parecia pesado, era o peso da morte e a morte mirava Molnár…

E então Oliver investiu contra ele, movido pela raiva e pelo calor do sangue que escorria quente em sua boca. O brutamontes projetou sua mão com todo o peso de seu corpo, foi rápido, Molnár tentou desviar mas não conseguiu. Recebeu o golpe no ombro esquerdo, enquanto desferia uma joelhada contra o peito de Oliver. Ambos giraram e cairam juntos enquanto Molnár mordia e arrancava um pedaço da orelha de Oliver.

O sangue escorreu pela neve branca que cobria o chão.

Molnár tentou levantar rapidamente, mas sentiu seu ombro deslocado e seu braço falhou. Oliver não tentou se levantar, ele ficou contorcendo-se no chão, com os braços apertando o peito onde haviam três costelas quebradas e com sangue escorrendo em sua face.

Antes que Molnár tentasse se arrastar para longe dele, duas mãos o puxaram e o jogaram para o canto.

– Chega dessa merda. – Disse uma voz ríspida e rouca.

Os homens se afastaram para abrir caminho à Szél, ele era grande como Oliver, mas com corpo magro e musculoso. Sua presença parecia impor respeito entre os presentes de uma forma superior. Ele ajudou Oliver a se levantar, passou o braço do homem ferido sobre seu corpo e carregou com certa facilidade o homem que era tão grande quanto ele.

– Molnár é protegido de meu pai, Harsing, general e herdeiro de Jules MacCormack. Agora Molnár é meu irmão e sendo assim, irmão de todos vocês.

– Ele é um maldito! O povo branco o tocou. – Gritou um garoto magrelo do bando.

– Ele comeu minha porcaria de orelha! É um maldito canibal, fedido como o povo branco. – Chorou Oliver em protesto…

– O povo branco matou seus pais, seu povo e destruiu suas terras, mas ele não se entregou. Ele sabe lutar e agora lutará ao nosso lado. – Respondeu Szél com veemência. – Vá cuidar de sua orelha, Oliver e aprenda a usar o que sobrou dela.

Quando o bando começou a debandar, Molnár encarou Szél.

– Eu não preciso de você ou seu pai para me defender. – Disse Molnár com desgosto, então virou-se em direção à mata e correu.

Szél olhou mais uma vez para o bando de opressores… Não passavam de garotos, como eles, mas já eram soldados. Muitos deles, com cerca de 14 anos já haviam engrossado as fileiras de Jules no ano passado, quando o seu Senhor se uniu aos nobres do Norte para lutar contra invasores do além-mar. Agora, de volta para casa, passavam o dia bebendo e brigando, aguardando o fim do inverno para voltar a marchar.

A essa altura, Molnár já deveria estar longe, mas Szél decidiu procurá-lo, pois o garoto ainda estava ferido e havia acabado de enfrentar Oliver, também conhecido como “Mão de Martelo”. Molnár não fora tão longe e Szél o encontrou limpando os ferimentos em um pequeno riacho na floresta. Estava frio e Molnár tremia.

– Você teria vencido. – Disse Szél.

– Ele é forte, mas cansa rápido. – Respondeu Molnár.

– Oliver tem um corpo muito grande, mas pulmões e coração pequenos. Ele respira pouco. Bate forte, com certeza, mas cansa rápido.

– Eu quase apaguei no primeiro soco.

– Ele derruba muitos com o primeiro soco, mas você é teimoso.

Molnár ficou em silêncio, apertou seus ferimentos e rangeu os dentes.

– Todos sabem como você matou um maldito, com suas próprias mãos, amassando o crânio dele contra o chão. Há muito tempo ninguém via o povo branco, eram lendas antigas que muitos já desacreditavam. Não ache que isso será esquecido tão cedo. Todos falam disso agora e falam de você, Oliver estava apenas te testando, ele sempre implica com recrutas, mas numa batalha ele daria a vida dele pela sua.

– O que você quer comigo?

– Você é minha responsabilidade. Vai morar comigo na casa militar e não na casa de meu pai. Quando o inverno acabar, Jules nos mandará para as fronteiras do norte para lutar nas batalhas contra o povo do além-mar. Até lá, preciso transformá-lo em um guerreiro.

– Eu não ficarei aqui. – Respondeu Molnár com desprezo.

– Não há para onde ir… O inverno nos isola.

– Eu vou atravessar o lago branco.

– Você deve ser maluco mesmo ou Oliver te bateu forte demais! – Espantou-se Szél. – Além do lago branco é a terra dos mortos, para atravessá-lo você precisa estar morto.

– O povo branco atravessou para nosso lado. Vou atravessar para o lado deles e matá-los.

– O povo branco não se afeta com frio, com vento ou com gelo. Você morreria…

– Então menos pior, atravessarei assim, morto. E quando chegar ao outro lado, deixarei minha alma matá-los…

– Ele está delirando? – Perguntou Irina ao se aproximar lentamente dos dois rapazes.

Szél olhou para ela, então levantou-se para reverenciá-la com gentileza e então olhá-la nos olhos. Um breve momento de silêncio entre os dois pareceu uma eternidade enquanto trocavam olhares. Até o vento pareceu parar entre eles. Szél considerava que Irina era uma criatura angelical, cuja presença, desde sua infância, sempre despertara uma paz quase tangível no ambiente, ao redor dela, até as flores e as folhas das árvores mudavam de cor, adquirindo tons mais vivos e reluzentes.

– Toque a testa dele… – Disse a garota despertando Szél de seus devaneios. – Se estiver muito quente, ele pode estar febril.

Szél o fez e constatou que Molnár estava ardendo em febre, então Irina despiu uma pele de raposa que usava em suas costas e cobriu o garoto. Ela o ajudou a levantar e então o colocou nos ombros de Szél. Molnár não reagiu, ele apenas olhava para a garota e parecia enfeitiçado, seguindo cada um de seus comandos. E enquanto Irina movia-se de forma delicada e parecia flutuar sobre a neve, ambos os jovens não conseguiam pensar em mais nada.

– Leve-o para casa, Szél. Leve-o depressa. Ele precisa descansar.

– Irina… – Chamou Szél com uma voz rouca…

Ela olhou em seu olhos mais uma vez e sorriu.

– Meu pai pediu para lhe entregar uma mensagem…

– Pois pode entregar.

– Bem… Você, seu pai e sua irmã devem comparecer à casa de Harsing nessa noite para o jantar. Ele quer discutir os termos para o casamento.

Irina sorriu novamente. Seus olhos brilharam.

A garota juntou as mãos sobre o peito e o ar pareceu lhe faltar. Irina relembrou seus feitiços colocados nas árvores dessa mesma floresta e se sentiu realizada. Seus desejos foram atendidos e agora tudo seria perfeito… Então, não contendo sua felicidade, ela correu até Szél e o beijou.

Szél sentiu uma lâmina de gelo atingir sua alma, fazendo seu corpo estremecer. Sua boca sentia o gosto da boca de Irina, ele sentia o corpo quente da garota junto ao seu e a uma eletricidade parecia uní-los de uma forma inexplicável. Ele não queria acreditar no que estava sentindo, não queria sentir o que estava sentindo, mas nada em sua vida fora parecido com isso antes… Ele se sentiu vivo e sentiu que sua vida de bastardo enfim valera a pena e que pela primeira vez em sua existência, ele havia ganho algo realmente especial.

O beijo acabou, mas todo o corpo de Szél que estivera em contato com Irina permaneceu dormente, como que entorpecido por um prazer exuberante.

– Obrigada, Szél! Obrigada! – Disse Irina ainda eufórica. – Eu amo você!

Então a garota pois-se a correr para casa e sumiu em meio às árvores…

– Você vai casar com ela? – Perguntou Molnár, ainda encantado pela beleza da garota e invejando a sorte daquele que lhe oferecera ajuda.

Szél olhou para ele, então virou-se para o lado para esconder as poucas lágrimas que surgiam em seus olhos. Ele respirou fundo, olhou para dentro de sua alma e viu que todos os seus sonhos partiram-se no mesmo momento em que se fizeram reais…

– Não… Ela vai casar com meu pai.

CONTINUA…

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