Precisamos Falar Sobre Sérgio

“Naquela pequena sala escura e suja, com paredes pintadas de um verde triste e desbotado havia um quadro empoeirado com o busto sorridente de Sérgio Vieira de Mello, o desconhecido herói brasileiro que morreu aqui em 2003. Senti imediatamente ainda mais simpatia por ele, éramos dois brasileiros do outro lado do mundo. Porém, diferente dele, eu escapei por pouco de pagar com minha vida. O Brasil estava muito longe naquele momento, longe demais até para sentir saudades de casa. Eu estava isolado em Bagdad…” 

O texto acima foi extraído de um dos meus livros inacabados, intitulado “Brazilero” ele narra a história de Thomás Molé, um jornalista brasileiro que encontra-se no fogo cruzado da insurgência iraquiana alguns anos após o atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello. Acho importante falar sobre Sérgio e tentei expressar sua grandiosidade na obra, pois no Brasil quase não ouvimos seu nome, mas sua postura como embaixador da ONU e sua contribuição diplomática para o mundo continuam ecoando.

E é exatamente por isso que estou trazendo o assunto para o blog. A Netflix anunciou a data de estreia de um filme com Wagner Moura no papel do diplomata brasileiro. A película, que ainda conta com Ana de Armas e é baseada no excelente livro da Samantha Power, estará disponível para streaming no dia 17 de abril, mas até lá, precisamos falar sobre Sérgio.

O Homem Que Queria Salvar O Mundo 

O título acima batiza a obra de Samantha Power, que já deixo como indicação nesse post. O livro é excelente. É uma mistura envolvente de biografia com texto jornalístico intenso que narra a missão da ONU em Bagdad. Suas 650 páginas parecem passar rápido demais para contar a história de uma vida tão apaixonada pela humanidade, por ideias e pela liberdade. 

Como acredito que todos irão ler esse livro necessário, deixo abaixo o prefácio de António Guterres:

“Sérgio Vieira de Mello foi um dos mais corajosos e carismáticos diplomatas da sua geração. Muito jovem, entrou nas Nações Unidas, com cujos ideais sempre se identificou. Ao contrário da maioria dos seus colegas preferia estar em campo em vez de exercer cargos burocráticos em Nova Iorque. Em situações especialmente dramáticas – como a do Ruanda, que originou uma das mais graves crises humanitárias do século XX, e a de Timor-Leste, que culminou na transição para a independência – Vieira de Mello conseguiu contrabalançar os seus princípios morais, moldados nas ruas de Paris em Maio de 1968, com os da política e das relações internacionais. Esta fascinante personagem, já comparado a Bob Kennedy, é analisada a fundo nesta biografia de Samantha Power. Sem abandonar o espírito crítico, Power descreve a carreira de Vieira de Mello mostrando como a experiência do diplomata nos massacres da Bósnia e do Ruanda alteraram a sua visão do mundo. Ele, que achava possível transformar situações difíceis só pelo poder das ideias, passou a considerar também essencial, no limite, o uso de força militar para impor a paz. Foi assim que Vieira de Mello assumiu a difícil posição de chefe da missão da ONU no Iraque após a invasão americana. Vieira de Mello não teve muito tempo para reverter a situação. Em 19 de Agosto de 2003, um atentado suicida destruiu parte do quartel-general da ONU em Bagdad, e ele foi uma das suas vítimas mortais. A sua história, no entanto, permanece como ponto fundamental no debate sobre o futuro da ONU e das relações internacionais.”

Um Breve Novo Milênio

Negar os conflitos existentes no planeta é uma utopia fugaz, pretensiosa e egoísta. O mundo mudou na terça-feira, 11 de setembro de 2001, não apenas pela brutalidade dos acontecimentos, com a queda do World Trade Center em Nova Iorque, mas também pela “Cruzada” extremista e preconceituosa que se formou como retaliação. A guerra contra o terror provou-se uma jornada neurótica de auto-flagelação que destruiu a liberdade.

Por influência de sua formação marxista, Sérgio tinha uma profunda desconfiança do poder do Estado e da força militar e acreditava que o único caminho para a criação de uma estabilidade mundial e duradoura era pressionar os países para que eles seguissem regras internacionais. E foi essa convicção que o impulsionou a assumir uma missão impossível atrás da outra. A obra de Samantha Power contextualiza o cenário desses conflitos complexos, como a invasão israelense no Líbano, em 1982, a guerra civil no Camboja, a guerra na Bósnia, o genocídio em Ruanda, o conflito em Kosovo, a independência do Timor-Leste e, por fim, a invasão do Iraque.

“O Homem que Queria Salvar o Mundo” é um livro pesado, mas os detalhes são importantes para colocar o leitor ao lado de Sérgio e dentro de cada conflito, testemunhando a complexidade de cada missão e o profissionalismo pró-ativo do diplomata. Além de aprendermos sobre a vida da importante figura que foi Vieira de Melo, também entramos no ambiente das Nações Unidas, nos frustrando com a politicagem e a estrutura engessada da Organização. 

A sua vocação faria dele o homem mais indicado para representar a ONU na reconstrução do Iraque após a deposição de Saddam Hussein. Vieira de Mello foi nomeado justamente porque era, na visão de Kofi Annan, o único capaz de negociar concessões com o presidente George W. Bush, que já declarara publicamente sua admiração pelo trabalho do diplomata. Não houve tempo – ele morreu dois meses após chegar a Bagdá.

A Bomba-Relógio de Paul Bremer

Quando o terrorista detonou a bomba, Paul Bremer estava na Zona Verde, reunido com uma delegação do Congresso. O palácio tremeu com a força da distante explosão. Um de seus auxiliares entregou-lhe um bilhete escrito em um papel amarelo: “Ocorreu uma explosão no Hotel do Canal. Estamos tentando nos comunicar pelo telefone com pessoas de lá.” Dez minutos depois, o auxiliar trouxe uma segunda nota: “A situação parece bem ruim.”

O administrador civil norte-americano L. Paul Bremer III estava há menos de duas semanas no cargo em Bagdad quando anunciou uma decisão que deixou em estado de choque toda a sociedade iraquiana. Com um golpe de caneta, Bremer dissolveu as Forças Armadas do Iraque, despedindo mais de 400 mil oficiais e soldados cuja fraca resistência ajudara a garantir a vitória militar sobre o governo de Saddam Hussein. Foi uma decisão contrária aos conselhos de peritos americanos, de responsáveis iraquianos exilados e à orientação de Sérgio Vieira de Mello.

A decisão de Bremer imediatamente contribuiu para aumentar a violência. As suspeitas foram reforçadas por provas de que o ataque contra a ONU em Bagdad, que vitimou o diplomata brasileiro, foi preparado com munições soviéticas do exército de Saddam. “Foi uma decisão atroz”, comentou Feisal Istrabadi, um advogado de Chicago que participou de um projeto do Departamento de Estado chamado Futuro do Iraque, “Não compreendo por que é que se pega em 400 mil homens ligeiramente armados e treinados para os transformar num inimigo.

Depois de uma invasão rápida e eficiente, com apoio do povo e dos militares iraquianos, foi uma ação política, ideológica e inconsequente que iniciou um ciclo sangrento de conflitos que transformou o Iraque no barril de pólvora que anos mais tarde permitiria o levante do ISIS. Era tudo o que a política conciliatória de Sérgio pretendia evitar.

Para quem gosta de literatura militar, além do excelente livro da Samantha Power, indico também o “IRAQ FULL CIRCLE” (em inglês) escrito pelo Coronel Darron L. Wright, que organiza a narrativa da missão de invasão americana no Iraque.  

Outra boa opção para entender esse período complicado, essa avalanche de erros estratégicos, é o filme Green Zone, de 2010, com Matt Damon. O filme de Paul Greengrass retrata os eventos de 2003, quando o chefe militar Roy Miller e sua equipe têm uma missão no Iraque: procurar armas de destruição em massa. O espectador acompanha os soldados em incursões perigosas ao redor de Bagdad, frustrando as expectativas de legitimar a invasão ao se deparar com um galpão vazio após o outro, em paralelo, as trapalhadas da administração americana tornam o ambiente cada vez mais perigoso para seus próprios soldados. A mentira é uma arma muito letal.

 

Sérgio Vieira de Mello na Netflix

SERGIO

Antes de conferir o longa-metragem com Wagner Moura, você pode conhecer mais sobre a vida do Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, ícone da diplomacia internacional, através do comovente documentário que retrata a vida de Sérgio Vieira de Mello.

Documentário Sérgio na NETFLIX

 

SERGIO

Já o filme, amplamente antecipado, estréia no dia 17 de abril e retrata paixões, ideais e uma terrível realidade, que ameaça a vida do diplomata. O longa-metragem acompanha Sérgio em sua última missão na capital iraquiana, mergulhada no caos após a invasão americana. Integra também o elenco a atriz cubana Ana de Armas, que vive Carolina, mulher do diplomata. A direção é de Greg Barker e o roteiro, de Craig Borten.

Filme Sérgio na NETFLIX

Homerodetalhe é:

17 anos após a morte de Sérgio Vieira de Mello, o mundo é um lugar mais perigoso. Nesse momento de lideranças ignorantes e destrutivas, precisamos revisitar a sua história como exemplo da busca pela paz, liberdade, tolerância e cooperação.

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