HomeroDetalhe – S01E01: Baleia Branca

Editorial do blog HomeroDetalhe.com

Análise crítica do discurso e da situação da violência no Brasil.

“Bolsonaro não foi eleito para combater a violência. Ele foi eleito por causa da sua violência. Seus discursos são belicosos, misóginos, racistas, homofóbicos e eugenistas. É o grito ululuante da hipocrisia elitista do Brasil, um desatino social que promoveu uma vingança política no país. Esse movimento, que ladra obscurantismo e revisionismo histórico em uma batalha contra a ameaça comunista, jamais seria capaz de promover a paz. Ele se sustenta sobre o medo, sobre o terror. É um espelho do seu próprio inimigo imaginário.”

Após os ataques terroristas em Bruxelas, na Bélgica, em 22 de março de 2016, assim como aconteceu na ocasião dos ataques de Paris, em novembro de 2015, uma onda antisemita varreu as mídias sociais, inclusive no Brasil, onde o completo desconhecimento sobre o mundo Árabe só não é maior que o preconceito quanto a ele.  Inclusive, líderes políticos que representavam uma nova direita, moralista e conservadora, utilizaram as tragédias na Europa como propaganda nacionalista em um país como o nosso, que tem sua formação baseada na pluralidade cultural. Naquele momento, o Brasil se encontrava em uma crise política, em vias de votar o questionável impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, e uma das principais vozes que vociferava calúnias contra imigrantes e muçulmanos e pedia o fechamento das fronteiras para o que ele dizia ser a “escória da humanidade”, era o atual Presidente Jair Bolsonaro. Um deputado carioca do baixo clero, armamentista, defensor da ditadura e da imposição da violência, com discurso fascista e ignorante, tornou-se o retrato de um país incapaz de se enxergar.

Com cerca de 35 milhões de habitantes, vivendo em uma severa crise há mais de de 30 anos, com diversos embargos econômicos, corrupção generalizada e falência total do estado, enfrentando os radicalismos de uma guerra sectária pós-ocupacão estrangeira e insurgência, sem nenhuma estrutura de segurança pública confiável e nenhuma perspectiva de avanço social ou financeiro, o Iraque apresentava, na ocasião, o maior índice de violência de sua história, com 17 mil mortes de civis e, estimadas, 5 mil mortes de soldados e milicianos em 2014. Apenas para uma rápida comparação, o Rio de Janeiro, cidade de Jair Bolsonaro, apresentou entre 5 a 6 mil assassinatos e mortes decorrentes de violência nesse mesmo ano, além de aproximadamente 8 mil desaparecimentos registrados. A população do Rio, entretanto, é de aproximadamente 6 milhões de habitantes, seis vezes e meia menor que a do Iraque. Vale lembrar que no ranking da violência das capitais brasileiras, a cidade carioca estava apenas em 13º lugar. Fortaleza ocupava a primeira posição com 77,34 mortes violentas a cada 100 mil habitantes. Essa violência no Brasil, diferente de uma zona de guerra, é endêmica

Bolsonaro não foi eleito para combater a violência. Ele foi eleito por causa da sua violência. Seus discursos são belicosos, misóginos, racistas, homofóbicos e eugenistas. É o grito ululuante da hipocrisia elitista do Brasil, um desatino social que promoveu uma vingança política no país. Esse movimento, que ladra obscurantismo e revisionismo histórico em uma batalha contra a ameaça comunista, jamais seria capaz de promover a paz. Ele se sustenta sobre o medo, sobre o terror. É um espelho do seu próprio inimigo imaginário.

Olhamos os países e conflitos que desconhecemos com desprezo. Mas nosso desprezo não é apenas um sinal de afastamento emocional ou cultural, nosso desprezo é edificação da nossa ignorância como nação. Defendemos, demagogicamente, essa paz que não temos. A estrutura de segurança do Brasil faz parte do sistema axiomático de marginalização da nossa cultura individualista. Nos falta educação para promover civilidade e empatia social, mas defendemos cruzadas distantes contra povos que queremos manter distantes. Em outras palavras, enquanto o discurso político unilateral proclamar a esperança – ou desculpa – de encontrar a paz, ele terá justificativa para promover a guerra!

Homerodetalhe é:

Hoje, essa paz é uma baleia branca. Buscá-la é uma obsessão tão nociva quanto assumir nossa própria necessidade de violência. Não obstante, somos uma doença apenas por acreditar que podemos ser a cura.

Se você gostou do primeiro episódio, deixe aqui suas sugestões para os próximos!

Texto, voz e edição por: Homero Meyer

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